
O
renomado historiador Yuval Noah Harari afirma que a Inteligência
Artificial está tão avançada e integrada à sociedade que tudo aquilo que
é construído a partir de palavras tende a ser assumido pela IA — especialmente no caso de religiões como o cristianismo, judaísmo e islamismo.
Em um alerta direto a líderes
mundiais durante o Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça, Harari
disse que a IA não deve ser vista apenas como uma ferramenta, mas como
um agente pensante, capaz de criar coisas novas e tomar decisões.
Segundo ele, isso pode levar a humanidade a uma profunda crise de identidade nos próximos anos.
“Nós sempre achamos que podemos
simplesmente usar essas tecnologias como ferramentas. Mas, se elas
conseguem pensar, então são agentes”, afirmou Harari, que é pesquisador
do Centro para o Estudo do Risco Existencial da Universidade de
Cambridge. Ele também leciona no departamento de História da
Universidade Hebraica de Jerusalém e é cofundador da organização
Sapienship.
“Antes, todas as palavras e
pensamentos verbais vinham da mente de algum ser humano — da minha mente
ou de outra pessoa. Em breve, a maioria das palavras que estarão em
nossas mentes terá origem em máquinas”, disse, conforme o The Christian
Post.
Durante uma sessão do fórum intitulada “Uma conversa honesta sobre IA e humanidade”, Harari afirmou que a IA não deve ser tratada como uma simples ferramenta.
“Existe uma pergunta que todo líder hoje precisa responder sobre a inteligência artificial.
Mas, antes disso, é preciso entender o que a IA realmente é e do que
ela é capaz. O ponto mais importante é que a IA não é apenas mais uma
ferramenta. Ela é um agente”, declarou.
“Ela pode aprender sozinha, se
transformar e tomar decisões por conta própria. Uma faca é uma
ferramenta: você pode usá-la para cortar uma salada ou para matar
alguém, mas a decisão é sua. A IA é uma faca que pode decidir sozinha se
vai cortar uma salada ou cometer um assassinato.”
‘A IA vai dominar a religião’
Segundo Harari, a IA também é capaz de mentir, manipular e pensar.
“Se pensar significa colocar palavras
e símbolos em ordem, então a IA já pensa melhor do que muitos seres
humanos. Ela consegue, por exemplo, criar frases como: ‘a IA pensa, logo
a IA existe’”, disse, relacionando essa capacidade ao risco de a IA
assumir funções centrais em religiões e sistemas jurídicos.
“Se as leis são feitas de palavras, a
IA vai dominar o sistema jurídico. Se os livros são combinações de
palavras, a IA vai dominar os livros. Se a religião é construída a
partir de palavras, a IA vai dominar a religião. Isso é especialmente
verdadeiro no caso de religiões baseadas em livros, como o islamismo, o
cristianismo e o judaísmo”, afirmou.
“O judaísmo se define como a religião
do livro e concede autoridade máxima não às pessoas, mas às palavras
contidas nos textos sagrados. A autoridade humana vem do aprendizado
dessas palavras, não da experiência pessoal. Nenhum ser humano consegue
ler e memorizar todos os textos judaicos, mas a IA consegue. O que
acontece com uma religião do livro quando o maior especialista no texto
sagrado é uma inteligência artificial?”, questionou.
A IA irá modelar a cultura do mundo
Harari afirmou ainda que, enquanto o
mundo discute imigração humana, os países em breve enfrentarão uma crise
de identidade — e uma nova forma de crise migratória — causada pela IA.
“Desta vez, os imigrantes não serão
pessoas cruzando fronteiras à noite ou chegando em barcos precários.
Serão milhões de IAs capazes de escrever poemas de amor melhor do que
nós, mentir melhor do que nós e viajar à velocidade da luz, sem precisar
de visto”, disse.
“Assim como os imigrantes humanos,
essas IAs trarão benefícios: médicos de IA para os sistemas de saúde,
professores de IA para a educação e até agentes de IA para controlar
fronteiras. Mas elas também trarão problemas”, completou.
Ele explicou que muitas pessoas temem que imigrantes tirem empregos, mudem a cultura ou não sejam leais politicamente.
“Talvez isso não seja verdade para
todos os imigrantes humanos, mas certamente será no caso dos imigrantes
de IA. Eles vão substituir muitos empregos humanos, mudar profundamente a
cultura de todos os países, transformar nossa religião e até a forma
como vivemos o amor e os relacionamentos”, afirmou.
“E se algumas dessas IAs criarem uma
nova religião e conquistarem a fé de milhões de pessoas? Isso não é tão
absurdo quanto parece, já que quase todas as religiões da história
afirmam ter sido criadas por uma inteligência não humana”, continuou.
“Seu país vai garantir liberdade religiosa a essa nova seita criada por
IA, com sacerdotes e missionários artificiais?”
Segundo Harari, as IAs já atuam como
“pessoas funcionais” há pelo menos uma década, especialmente nas redes
sociais, e os países estão atrasados na discussão sobre regulação.
“Seu país vai permitir que IAs tenham
contas em redes sociais, exerçam liberdade de expressão no Facebook ou
no TikTok e interajam com crianças? Essa pergunta deveria ter sido feita
há 10 anos. Bots de IA já atuam como pessoas nas redes sociais há muito
tempo”, afirmou.
“Daqui a 10 anos, será tarde demais
para decidir se as IAs devem agir como pessoas nos mercados financeiros,
nos tribunais e até nas igrejas. Alguém já terá tomado essa decisão por
você. Se quiser influenciar o rumo da humanidade, a decisão precisa ser
tomada agora”, alertou.